quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Gerações em décadas

Nas últimas semanas tenho reflectido sobre nós, os que vivem neste território lusitano, tenham ou não nascido aqui - se cá vivem partilham da responsabilidade. Para entender quem somos/ temos sido, é conveniente olharmos para as gerações por décadas de nascimento. Até há bem pouco tempo olhava para as gerações... não conseguia entender muita coisa; com as décadas, salta à vista várias considerações.

É uma análise macro, superficial; um esboço; como tal tem muito ruído, mas acho que se consegue perceber a silhueta.

Começemos...

Os que hoje tem 90, 80, 70 - regem-se por fortes princípios e valores; são de convicções; foram assim toda a vida: já aos 20 anos tinham as suas personalidades bem vincadas. Podemos ver estas coisas por em casa comer-se sempre às x horas, por ser domingo e temos que fazer qq... são humildes e de causas; veja-se duas figuras históricas, Salazar e Álvaro Cunhal; um para fazer frente ao outro tinha que ter fortes princípios, opostos mas com muita convicção; ambos foram despojados e lutaram pelo que acreditaram. Construiram a nossa história antes do 25 de abril.

Os que estão nos 60 - a dos meus pais (eu estou nos 40!); fizeram Abril. Criaram as suas famílias nos 11 anos que se seguiram; dificuldade era o mote. Sacrifício. Poucos fizeram o que gostavam; quase todos fizeram o que tinham que fazer. Estão esgotados, sem esperança. Só querem ter o seu "merecido descanso": a reforma; agora é que são livres. O problema agora é de outro, por acaso, filho e neto.

Os dos 50; estavam no primeiro emprego/ saída da faculdade quando veio os Governos de Cavaco Silva. Fizeram as suas carreiras sempre em crescimento. Consumo. Tudo era fácil. Chegavam os dinheiros Europeus. Agora é a minha vez. Geração mais instruída, criou os filhos em contexto de vacas gordas. Longe da reforma, muitos foram apanhados pela crise; no desemprego estão sem alternativa; nas empresas/ estado com medo. Pela primeira vez sentem que o que andaram a construir durante 25 anos não tinha boas fundações - a maior parte reclama da herança! Muitos foram chefes dos de 40! Esperemos que tenham saído do poder e que não voltem!

Os 40, estavam na faculdade ou em vias de entrar para ela; sairam nos 90. São a primeira geração a apanhar com a internet. São a geração que nasce com Abril. Filhos dos 60, brincam na rua; O Nuno Markl fala para esta década. Fizeram amigos, são instuídos. Estão a criar os filhos. Há muito que perceberam que a coisa anda mal, mas estão dentro do sistema e não sabem como muda-lo. Começam a tomar as radeas do país na justiça, educação, saúde, empresas, ...
Por todo o lado se houve, "tem que mudar, mas como?". Descobrem que a reforma é um mito e começam a tomar o destino na sua mão.

Os de 30, tipicamente irmãos dos de 40; são desempoeirados; nas suas carreiras estudaram fora ou trabalharam fora, muitos ainda lá estão; são bem formados, com muitos títulos. Misturam trabalho e lazer; não tem preconceitos. São criativos e esforçados, estão a conciliar tradição e modernidade. Sentem-se bem consigo e com o mundo. Estão a desencaminhar os de 40, a estimula-los. A dar um sentido e a dar respostas ao "como". Já sabem que o futuro terá que ser construído e que não há nada garantido - apenas o que forem capazes de construir.

Os de 20. Os da manifestação na avenida. Tipicamente filhos dos de 50, andam perdidos. Pedem ao sistema para lhes dar uma oportunidade, mas sabem que o sistema está mal. Não estão a sair como fizeram os de 30. Estão mais negativos. Muita facilidade ? Resistência à primeira dificuldade, e que dificuldade! Muitos, os que fizeram os caminhos dos de 30, partilham do espírito e veêm um mundo novo; os outros estão bloquados, presos, retidos.

Os de 10! Que geração! a primeira com as 'múltiplas inteligências' do Gardner ? Parecem ter outra capacidade cognitiva. Desafiam os pais e obrigam-nos a estudar para acompanhar os filhos; são activos, cultos e relacionados com o mundo! Parecem colher dos setes saberes do Morin.

Os de 0's! Mostram já muita gara! 2ª vaga! estou a ver como estão a ser preparados. Aos 5 anos, falam de salvar o planeta, e dizem em inglês. No dia do aniversário do amigo, pedem para falar com ele e dar os parabéns; escolhem a prenda a dar de acordo com o amigo.

Há esperança! Temos que continuar!

A coisa terá que ser resolvida com os 30-40 num enacting entre ambas as décadas e com modelos novos, mais auto-organizados, que começam a surgir; os 20 e os 50 viram atrás, uns após vencerem a negação e demais fases (50); os outros quando começarem a perceber caminhos novos (20). Temos também que perceber como vamos juntar a experiência dos 60.

Não terá sido sempre assim ?

1 comentário:

Hugo Henrique Macedo disse...

Muito bom!
concordo plenamente e completa muito bem algumas ideias geracionais que tinha!

merecia um share :)