sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Breves notas sobre emprego (enciclopédia 5)

Inspirado pela Enciclopédia 1, 2 e 3 do Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre, respectivamente, Ciência, Medo e Ligações, escrevo estas breves notas sobre 'emprego', depois de ter feito sobre a propriedade (enciclopédia 4).

Enciclopédia 5
Breves notas sobre emprego


Emprego
É criado por alguém ou por algo. Termina quando alguém ou algo decide.
É um título de propriedade: procuro empregado para este meu emprego, que meu empregado será - uma mercadoria. Cedência da liberdade.
Em troca, 10 moedas de ouro. O valor social do emprego. O valor que é socialmente aceite.


Proprietário
O emprego tem dono; ele cria o emprego e depois dá alguém. O outro recebe o emprego e usa-o.
O emprego é uma propriedade. Quando tenho um emprego, tenho um dono. Sou sua propriedade: o 'meu' empregado. Ele pode acabar com o emprego.


Propriedade
Em Prego. Ter emprego é ter um prego (um ou mais). Antes fosse uma libertação. Quem prega o prego ? O dono do emprego ? O que recebe o emprego ? O que só pode aceitar o emprego. Não o cria. Não o acaba. Ter emprego, é ser empregado de alguém ou de algo.


Desemprego
Des Emprego. Reforço o estar em Prego. É o estado após o emprego. Se escolhi ter emprego, escolho também ser desempregado. E fico mais pregado ainda. Pregado ao que fui e ao que fiz para o dono do emprego. Pregado pelo estilo de vida que o dono do emprego me proporcionou, pelo sal que me concedeu. Pregado nos meus hábitos. Pregado nas minhas histórias. No meu pensamento e nas minhas emoções.


Valor
O que é digno de emprego. O que é socialmente aceite como merecedor de sal.

Tem valor uma pesquisa no Google. Tem valor um carro de plástico, brinquedo chinês. Tem valor uma maça com químicos. Um garrafa de água, que pode ser devolvida, a garrafa de plástico, ao mar. Tem valor o petróleo que se queima. A corrupção. A droga.

Não tem valor o criar um filho. Não tem valor o cuidar do pai idoso ou doente. Não tem valor a limpeza da floresta. A bondade. O amor.


Economia
O que gera valor.
O que atribui o valor ao emprego.
O que atribui o emprego.
A gestão da propriedade.



'Comuns' acabam com a pobreza

O filofoso alemão Martin Heidegger definiu o conceito de 'transparência'; em termos simples é uma maneira de viver em que não temos consciência da nossa ação, esta é-nos transparente. É como ir a conduzir um carro de um ponto A para um ponto B e, quando chegamos não nos lembramos se os semáforos estavam vermelho ou não, se as luzes estavam acesas, se as laranjeiras estavam em flor ou outro aspecto do percurso. A maioria dos humanos passa pela vida de forma transparente. Todos os dias passamos ao lado da pobreza, mas esta é transparente nas nossas vidas.

A pergunta é como podemos acabar com as transparência, e trazer a consciência o que nos rodeia, por forma a podermos observar, conversar, pensar e agir de forma diferente ?

Um resposta é, pela negativa: haja crise - quando a pessoa perde o emprego, acaba-se a transparência e a pobreza passa a ser uma possibilidade; acaba-se a transparência. Comete-se um crime, ou outra ação que quebre a transparência pela negativa e torne a pobreza uma realidade para cada um de nós. A negativa não gera energia, gera medo. Tipicamente faz com que a quebra de transparência ocorra quando já é tarde.

Há maneira de fazer pela positiva ? A resposta é afirmativa, mas teremos a vontade ? Conseguiremos perceber que o facto de não sairmos da transparência sobre a pobreza, não sendo digno de uma sociedade humana também não é 'útil' para um pragmático, dado que com cada vez mais pobres o resultado será inevitável: veja-se o que se passou na 1ª metade do século XX na Europa.

Precisamos de pensar em formas positivas de quebrar a nossa transparência sobre a pobreza:

- Fazer greve geral para acabar com a pobreza, em que cada pessoa, nesse dia não vai trabalhar, mas vai a procura de outras pessoas pobres e ajuda, aprendendo o que é ser pobre e o que esta a gerar a pobreza; fazemos um dia de greve por semana até acabar a pobreza

- Passamos a trabalhar meio dia; o outro meio dia vamos combater a pobreza; projecto para todos, até acabar a pobreza; cada um usa a sua arte, nesse sentido

Já imaginaram o que resultaria dum projecto destes ? Todos iam para a rua aprender, observar, qual projecto de design thinking. Todos seriam transformados. E o que seria a energia resultante de acabar a probreza ? Haveria coisa que não se conseguisse fazer ? Haverá coisa mais nobre numa sociedade ?

Este poderia ser um projecto para Nós, os comuns (We, the commons), que anuncia-se ao Mundo uma alternativa de organização e ação humana. São as minhas crenças.

Fome e Pobreza

Vejo muitas vezes, de forma vulgar, pobreza e fome serem usados como se fossem sinónimos. E não são. O que as separa faz toda a diferença.

'Fome' é uma condição da vida biológica. A vida para ser mantida necessita de energia. A alimentação fornece essa energia sobre a forma de alimento. Enquanto houver vida, haverá fome. Nas sociedades primitivas, quando a humanidade era recoletora, a fome fazia parte do dia-a-dia, daqui que a natureza criou muitas maneiras de viver com a fome, como é o exemplo a acumulação de energia sobre a forma de gordura. No presente, na sociedade da abundância, a fome é um marcador, indica que os níveis de energia necessitam ser repostos, excepto casos de doença.

'Pobreza' é uma condição da vida humana, em particular da vida humana tal qual foi construída até ao presente. Ser pobre é não ter os meios necessários para aceder os recursos necessários a existência da vida. É ter 'fome' e não ter com que saciá-la ou fazê-lo em formas muito deficientes. É não ter água com a mínima qualidade para a vida. É ter frio e não ter com que se aquecer. É não ter abrigo digno. É não ter cuidados de saúde mínimos. É não ter acesso a as condições básicas da vida, as que permitem a existência. A pobreza não existia nas sociedades primitivas. É uma criação da vida em grandes comunidades e resulta de um conjunto de factores como a excessiva especialização, falta de acesso à cultura e educação, perca dos sabes básicos sobre plantas e seus usos, caça, pesca, agricultura, pecuária, introdução do conceito de propriedade (ver  Breves notas sobre propriedade (enciclopédia 4)), entre muitos outros.

A fome é uma condição da biologia. A pobreza uma construção humana, um resultado da construção da sociedade e da sua economia (gestão dos recursos da sociedade).
Se a probreza é uma construção humana, o que nos falta fazer para desfazer esta construção ? Como podemos desconstruí-la ?
Diz-se que é um resultado da economia, uma externalidade. Sendo a economia uma construção humana, para que construir uma economia que provoca a pobreza, i.e. a constroi, fabrica ou outra metáfora que sintam representar melhor o facto da pobreza ser resultado da vontade humana ?

É tempo de construirmos uma economia que tenha como escolha não haver pobreza. Este é um projecto para nos envolver a todos. O que pode haver de mais digno, que não seja, cuidar que outro humano não tenha fome, tenha abrigo, saúde, tenha a segurança necessária para poder florescer. É o que queremos para os nossos filhos. Temos que conseguir garantir que todos os humanos tem forma de conseguir isso, de acordo com o seu contexto de vida.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Alguns livros sobre 'conversas' e 'formas de conversar'

Muitas formas de conversar

Conversas comigo próprio
Conversas a dois
Conversas em situação de conflito
Conversas para partilhar conhecimento
Conversas para agir (motivação e compromisso)
Conversas para pensar (soluções critativas)
Conversas para decidir
Conversas para explorar novo conhecimento

Conversas a partir do que funciona bem
Conversas sobre o futuro que emerge
Conversas para desenvolver projectos de sucesso

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Nós, os comuns (We, the commons)

'Nós, os comuns' é um programa de transformação pacífica da sociedade humana e das suas formas de organização, por evolução generalizada da consciência humana e consequente revisão de conceitos socialmente construídos como é o caso da 'propriedade', 'dinheiro'. 'representação', 'cidadania', 'país'.

Este programa tem dois princípios:
- Não temos conhecimento, individual e colectivo para lidar com a situação actual do planeta Terra
- Cada um de nós, e todos nós, colaborando, vamos conseguir criar novo conhecimento e co-criar novos modelos/ conceitos de sociedade

E tem uma certeza:
- Não há certezas, pelo que temos que ser humildes, experimentar e não assumir verdades universais; o que funciona num contexto poderá não funcionar noutro; não podemos deixar que um conjunto de poucos possa tomar decisões pela totalidade.

Este é um programa para o nosso século. É um programa que já esta em marcha, de forma emergente, mediado pela Internet. É um programa que importa tornar visível, consciente e devolver o desenho e a intenção aos 'commons'.

* Ética dos comuns (commons ethics)
Veja-se a ética da permacultura
A do Leonardo Boff
A do Edgar Morin
A do H. Jonas

* Política dos comuns (commons politics)
União Europeia (protótipo da governação do Planeta Terra)
Felicidade e sustentabilidade no Butão
Informação e a constituição Islandesa
Cidadania da Terra na Bolivia

* Propriedade dos comuns (commons ownership)
creative commons
commons goods

* Economia dos comuns (commons economics)
Open Source
Collaborative consumption
Crowd funding
Microcrédito
Micro assurance
glocal
entrepreneurship

Esta transformação necessita de um particular estilo de liderança, uma liderança que serve, que facilita, que nutre, o desenvolvimento humano, a co-criação, a inteligência colectiva, a emergência. Uma liderença que estabelece um balanço entre o o bem estar individual, e o bem estar colectivo, que permite que todos os seres se 'cumpram', como defendia Agostinho da Silva. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A única certeza!

Tenho uma certeza neste caminho, no sentido de Nós, os comuns (We, the commons): a de que não podemos ter uma certeza. Partindo da ideia que 'não temos conhecimento para fazer face a situação actual e que em conjunto vamos conseguir desenhar e encontrar as respostas' ("Eu sei como resolver isto!"), fica uma certeza: a de que não podemos achar que temos a certeza, i.e.
a) que uma pessoa, um conjunto pequeno de pessoas conseguem mudar o todo (e.g. regime ditatorial)
b) que um modelo de organização é adoptado como bom e universal para todos (e.g. comunismo, capitalismo)
c) que uma tecnologia será a solução (e.g. nuclear, biotecnologia)

Humildes. Observar, formular hipóteses. Construir protótipos. Experimentar. Aprender. Iterar. Partilhar a experiência. O que funciona num espaço/tempo poderá não funcionar noutro espaço/tempo. O espaço do conhecimento.

Racionais. Temos que ter heuristicas, sobre a forma de normas sociais, que garantem que uma pessoa não terá forma de exercer poder sobre outra pessoa. Sabemos hoje que qualquer um de nós o fará, com o contexto certo. O espaço da relação ou inter-relação (da confiança, do cuidado, da compaixão, do amor).

Observando o 'movimento de open source' e do 'crowdsourcing' vemos estas características (novas relações, mediadas por tecnologia).
Observando o 'movimento europeu' vemos estas características.
Observando a 'felicidade' no Butão...
A cidadania da Terra na Bolívia...
A liberdade de informação na Islândia...

É tempo de empreender novos conceitos. Temos muito trabalho para fazer, desde a alimentação, saúde, educação, sistema financeiro, ... (ver Transformando o G (de EGO para ECO) a partir do Otto Scharmer) i.e. a acção de empreender no Mundo.

Interessante o caso Europeu. Jean Monet, o empreendedor do projecto europeu, tem uma inquietação "como evitar que a Europa entre de novo em guerra ?" No espaço de pouco mais do que uma geração tinhamos tido 2 devastadoras. O mudar a 'propriedade' do carvão e do aço, as materias primas da guerra, para os 'comuns' (estou a puxar a brasa a minha sardinha ;-) consegue que a Europa esteja em paz. As motivações para este projecto são as certas (paz e vida digna para os humanos), o processo o certo, de baixo para cima, em que cada nó participa na construção do que é 'comum'. O modelo de decisão e governação é democratico. Sabemos que o processo pode ser aprofundado, mas comparemos as Nações Unidas com a União Europeia neste tema da governação e da tomada de decisão. Percebemos que na Europa temos um excelente protótipo para uma nova governação Mundial. O conceito social (logo, também económico) que se começou a alterar foi a 'propriedade' que passou a ser mais 'comum', neste caso do carvão e do aço (

Também na Europa e na sua construção temos visto o que acontece quando respeitamos que a 'unica certeza é não haver certeza' e quando não respeitamos:
- veja-se a gestão de fronteiras, a moeda única: uns paises aderiram num momento, outros noutro e outros continuam fora; aqui foi respeitado; cada um experimentou; a regra que foi igual para todos, foi cada um poder escolher como iria fazer; aumentamos a resiliência do sistema
- veja-se a política agricola e das pesas comum: aqui foi abater (e.g. olival), destruir (e.g. frota de pesca); desturimos a resiliência dos sistemas; percebemos agora que não foi um bom critério ser igual para todos e que precisavamos ter menos certezas.

Cada vez mais tenho a sensação que as peças já cá estão todas, basta mudar a forma como as vemos. Se aprendermos a pensar em conjunto, mudamos as nossas acções (e.g. formulamos novas Metáforas). Pensar em conjunto significa, saber conversar uns com os outros. Ou seja, temos que aprender (ou reaprender) a conversar, a ter melhores conversas e novas maneiras de conversar (particular estilo de Liderança (Metáfora de Manada)). De ter um novo entendimento sobre a nossa Liberdade.

Sinais

Nas últimas semanas houve um conjunto de eventos que merecem ser referidos e registados. Constituem para mim um sinal de que 'algo' mexe, esta vivo, sente-se e faz-se sentir. Clama, reclama. Responde, estimula. Inquieta, interroga. Inspira.

Exposição comemorativa dos 30 anos do CAM - Sob o Signo de Amadeo. Um Século de Arte, onde cerca de 170 obras do Amadeo são apresentadas

Colóquio Internacional Almada Negreiros, 13 a 15 de Novembro (120 anos sobre o nascimento de Almada)

Congresso Internacional Surrealismo(s) em Portugal, 18 a 22 de Novembro (60 anos sobre a morte do poeta António Maria Lisboa, inaugura a Casa da Liberdade de Mário Cesariny)

"Diálogos sobre o Cinema Português e o Cinema do Mundo" com Joaquim Sapinho e Haden Guest, Gulbenkian e Harvard, desde 22 de Novembro

Congresso Internacional Fernando Pessoa,  28 a 30 de Novembro

São exemplos das últimas semanas. Podemos ir a outros campos, desde o cinema, teatro, dança, fotografia, ...

Com a música, ando espantado, como devem andar espantados todos os que celebram a obra, o empreendimento dos seus pares, pelos festivais de música em todo o pais, semana internacional do piano em Óbidos, semana internacional do saxofone de Palmela, semana internacional do Acordeão de Alcobaça, e por ai fora... E os músicos jazz ? Jovens, com muito talento, a trabalhar pelo Mundo, em rede, produzindo
Um indicador será observar, ao longo dos anos, o número de semanas internacionais, o número festivais de Jazz e de outras músicas a florescer pelo pais, bem como o número de candidatos ao prémio de jovens músicos da Gulbenkian.

Com estes dois 'fluxos' vemos respostas em diferentes tempos (curto, longo). No curto, a resposta, o celebrar do que melhor fizemos, inspirando novo sonho, nova visão de acção. No longo, a diversificação na educação em tornos de novas inteligências (e.g. música, movimento) cria novos talentos e um capital social que se começa a tornar-se visível. Em ambos vemos criatividade.

O 'sistema' responde pela cultura, pela celebração de valores que tem sido intemporais e que tem alimentado o pensamento português ao longo do tempo, essa capacidade de superação individual e colectiva, esse transcender-se, na busca de ser melhor. Exemplo disso é a última obra do Paulo Borges, "É a Hora!".


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Liderança (Metáfora de Manada)

Quando falamos em liderança ocorre uma ou duas ideias de forma sistemática: poder e controlo, tipicamente, ambas sentidas de forma negativa. De facto podemos ter a liderança hierárquica, autocrática, do comando e controlo, mas sinto que é cada vez mais fraca a sua influência. Hoje ouvimos falar de 'servant leadership', 'conversational leadership', 'conceptual leadership', 'resonant leadership', 'integral leadership', 'constructivist leadership',... traduz quer a necessidade, quer a resposta, a experimentação, a emergência.

Imaginem uma manada, uma daquelas manadas que observamos em movimento, por exemplo através da câmara do Yann Arthus-Bertrand. Ao longe percebemos que um vai a frente, que quando ele vira, a manada vira. A manada segue-o. Visto ao longe, parece ser ele o líder, o que vai a frente, o que é seguido, o que sabe como é. Sim, esta poder ser uma das perspectivas da liderança, talvez a que temos mais incutida em nós e que nos faz ter reacções viscerais. Se continuarmos a observar, vemos que entretanto, mudou o elemento da frente e a manada segue este novo elemento. A manada não parou, não fez uma assembleia, simplesmente seguiu um novo elemento. Se continuarmos a observar parece que sempre que muda o da frente acontece o mesmo. É como se todos os elementos estivessem pronto a liderar e assumam esse papel quando necessário. Assim visto de longe.

Vamos aproximar a câmara, para o elemento que vai a frente. Imaginem que esta colocada no seu ângulo de visão. Não tem ninguém a frente, tem aos lados e atrás. Ele desvia-se da pedra, da cobra, salta para terreno mais firme, vira a direita, mantém distância segura dos que vão perto de si e garante que o ritmo não o atropele. Se a câmara mudar para um do meio, ele é seguido pelos detrás, mantém dsitância segura dos do lado, controla a velocidade para não ser atropelado pelos detrás e não atropelar o da frente. Se a câmara for para o último vemos que ele não tem ninguém atrás, mantém a distância em relação aos do lado, segue os da frente e procura garantir que não se distancia, não vá o leão estar por perto. Parece que cada um lidera no seu contexto e de acordo com as suas variáveis.

Imaginem que conseguiamos colocar a câmara de modo a poder saber o que sente, qual a intenção, que pensamentos, ... ? E se a câmara pudesse observar 'a cultura do colectivo', o que estariamos a ver ? Parece que dependendo do ponto de observação temos uma visão diferente do que é liderança. Daqui resulta todos estes rótulos de um campo que esta a experimentar.

Mas a manada é uma metáfora que nos ilumina muitos pontos: é de um sistema vivo, quer os indivíduos, quer o colectivo. A liderança é sentida de forma diferente por cada elemento, mas todos fazem o que tem que fazer no seu contexto e estão preparados para o fazer, sendo que a preparação ganha-se fazendo, agindo. Há um ponto cego na metáfora, este ser vivo terá pouca consciência de si, quer o individuo, quer a manada. O que é humano tem este atributo, pelo que concebe, desenha, tem intenção, age, constroi, o que introduz maior complexidade. Emerge a linguagem e a conversação como instrumento de coordenação.

A manada permite-nos perceber que todos temos que estar prontos para ser lideres nos contexto em que operamos. Que há vários tipos de liderança. Que essa liderança é entre pares, pares na condição de ser humano. Que cada um de nós lidera - queremos que seja cada vez mais consciente essa liderança. Todos temos que responder a pergunta, que e metolologia de espaço aberto nos sugere: 'como pessoa consciente que escolhe realizar a ação, qual a responsabilidade que estou disponível para assumir hoje ?'

Bem poderia chamar-se liderança dos comuns (commons leadership).

Metáfora

O 'Universo' é um 'relógio'. O 'Cérebro' um 'computador'. A 'pessoa' um 'sistema de informação'. Falamos de 'software' para o 'cérebro'. De mudar o 'sistema operativo' da 'pessoa'. De levar a 'máquina' (corpo) ao médico. Falamos em 'acelarar' como se faz a um 'carro', para falar da mudança na nossa vida. São infinitas. Também pensamos nas nossas organizações da mesma forma, i.e., as 'comunidades de pessoas' são 'máquinas'. Tem um aspecto em comum, traçam um paralelo entre algo natural (e.g. pessoa, cérebro, universo) e algo que foi desenhado e construído pela humanidade e que é não natural (e.g. relógio, computador, máquina, carro), sendo um produto da ciência e da tecnologia, i.e., da forma que, para conhecer, separa; da forma que, para conhecer, controla. Traçamos paralelos com as máquinas, porque nos sentimos máquinas: "fazemos parte da engrenagem". A nossa linguagem diz quem somos e como nos vemos. Pensamos em nós e nos outros como máquinas: "vou mudar-te" ou "vou concertar-te". Estas metáforas e analogias foram importantes no tempo da humanidade, em que se morria queimado porque ser era curioso ou se tinha opinião: 'porque' e 'para que' eram perguntas proibidas.

Este foi um processo natural. Que conhecimento dominávamos ? O das nossas 'máquinas'. Que conhecimento desconheciamos ? O da natureza. Construímos metáforas com o que sabiamos para conhecermos a natureza.
A estrutura da metáfora era: 'objecto natural' (desconhecido) - 'objecto artificial' (conhecido).

Nos dias de hoje, conhecemos melhor a natureza. Começamos a entender que nós somos natureza. Que em nós podemos encontrar todo o Universo (pelo menos, há quem diga multiverso ;-). Este conhecimento começa a mostrar a finitude das nossas metáforas, dos 'objectos' e dos 'sujeitos'. Percebemos que as fronteiras do que conhecemos estão sempre a alargar: por cada resposta, formulamos novas perguntas. A linguagem do presente aponta para 'devir', 'processo', 'relação'. Temos que alterar as estrutura das nossas metáforas. Talvez substitui-las por histórias - não foi assim que começamos ? Será que vamos as histórias, cada vez que não temos linguagem para conversar sobre o 'novo', o que emerge, o que quer emergir ?


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"A Vida não Cabe numa Teoria

A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar"

Miguel Torga, in "Diário (1941)"

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Liberdade

Ao contrário do que se possa pensar, 'liberdade', é 'ouvir' e não 'falar' - de que serve 'falar' quando não somos 'ouvidos' ? Ou seja, numa democracia, 'liberdade', é ser 'ouvido', i.e. é saber 'ouvir': cada um a si; cada um ao seu semelhante. Por este critério, a nossa democracia tem muito para progredir. Mas a boa notícia é que só depende de cada um de 'nós, os comuns'.

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"Falar, ouvir

   Tratas as palavras que dizes como se fossem passageiros de primeira classe e tu um empregado servil, e, face às palavras dos outros, comportas-te como se elas fossem o empregado servil e tu o passageiro que viaja em primeira classe."

em
'Gonçalo M. Tavares
enciclopédia 1-2-3, breves notas sobre o medo - Falar, ouvir, pg. 159

Relógio D' Água, 2012'

sábado, 2 de novembro de 2013

"Eu sei como resolver isto!"

Há poucos dias atrás (17.Out), ouvi-me dizer esta frase: "Eu sei como resolver isto!". O "isto" é a situação em que estamos envolvidos em Portugal e no Mundo. Isto, enquanto engraxava os sapatos. "Como ?" perguntaram-me. Ao que respondi:

"1º Assumindo que não sei resolver isto!
2º Certo que nós todos, em conjunto conseguimos resolver isto!"

Desde então tenho reflectido sobre estas duas frases. São na prática dois princípios de uma certa maneira de Ser. Ser no sentido de indivíduo, ser humano. Ser no sentido colectivo, ser sociedade. E configuram dois princípios de um programa político com ponto de partida epistemológico diferente.

- Assumir que não temos conhecimento para lidar com a situação actual.

Cada indivíduo assumir que não tem conhecimento para, sozinho lidar com a situação actual. A sociedade no seu conjunto assumir que não tem conhecimento para lidar com a situação actual. Na prática significa deixar 'morrer' ("letting go") o paradigma do comando e controlo, e a crença racional que o conhecimento já existe, só temos é que o descobrir. E que são as elites (o que quer que isto signifique) que vão descobrir esse conhecimento. Ou seja, a ideia de 'problema'. Talvez o que estejamos a viver não seja bem compreendido com a ideia de 'problema' e com a perspectiva 'problem solving' que tem como premissa que o conhecimento ('solução') existe para resolver o 'problema'. Com este comportamento estamos a gerar resultados colectivos que não desejamos e não estamos a ver como podemos fazer individualmente para alterar o rumo.

Ao 'deixar morrer' criamos espaço para o nascimento do 'novo'. Um novo que visa observar, sem julgamento, de mente e coração aberto, para sentir, com todos os sentidos, o que pede para nascer, que 'novo' terá que nascer para amanhã ser melhor. Um novo que não vê cada decisão como final, antes um protótipo que nos levará a aprender, a descobrir novo conhecimento, a colocar em perspectiva o conhecimento antigo - este novo está bem caracterizado no filme de animação da Dreamworks "Como treinar o teu dragão'.

Convocavamos tecnologias sociais que nos permitem lidar com este processo, como sejam presencing, inquérito apreciativo, design thinking, world café, open space, dragon dreaming, council, dialogo, coaching ontológico, mindfulness e tantas outras.

Ou seja, assumir que não temos conhecimento para lidar com a situação actual, paradoxalmente, é o que permite convocar outro tipo de ferramentas que nos leva a um novo paradigma, ao paradigma que temos que criar no conhecimento para lidar com a situação presente. o Otto Scharmer diz que é a aprendizagem com o futuro que quer nascer como complemento de aprender com base em padrões passados.

- Confiar que cada um de nós (e todos nós), colaborando, vamos conseguir criar novo conhecimento e co-criar novos modelos/ conceitos de sociedade

A colaboração tem na sua base elementos muito importantes como subsistência e a segurança, que não sendo suficientes, são condições necessárias - se luto para sobreviver ou se fujo da guerra como posso colaborar na criação de conhecimento ?

Temos que ter contextos, materiais e imateriais, que suportem esta colaboração e onde se utilizem as tecnologias sociais que referi anteriormente. Volta a ser necessário, mas não suficiente.

Por último as conversas entre as pessoas tem que atingir níveis de profundidade que tolerem o outro, a diferença, a multiplicidade, os diferentes pontos de observação e perspectiva. Cada pessoa fala para ser ouvida e não há conversa se não houver escuta - quem gosta de falar para o boneco ?

A alienação que hoje vivemos da condição humana, escraviza, como todos estamos a sentir e permite que a 'banalidade do mal' se exerça hoje de formas subtis e por cada um de nós, quando deixamos de reflectir sobre a condição que nos escraviza: a nossa alienação da condição humana, a nossa distância ao nosso Ser.

Precisamos de nos escutar a um nível profundo, humano. E para isso temos que estar ligados de forma diferente. Temos que confiar no outro, na sua humanidade, na sua condição de Ser. Tolerância. Perdão. Temos que suportar o crescimento espiritual do outro. Temos que permitir que o outro se cumpra, como refere Agostinho da Silva e com isso cumprir-nos a nós. O Leonardo Boff fala da ética do cuidar. O Dalai Lama da compaixão. O amor de Jesus de Nazaré. Um cuidar de si e do outro - só posso cuidar do outro se cuidar de mim. A compaixão para consigo e para com o outro - só terei compaixão com o outro se a tiver comigo próprio. O amor próprio e ao outro - só poderei amar o outro se me amar, se me aceitar. A confiança na colaboração assenta na condição de cada um de nós poder Ser. E aqui cada um de nós pode agir.


Com estes dois princípios podemos pensar na escola, no hospital, na empresa, na camara, no tribunal, no banco, na esquadra, no quartel, no ministério, ..

Cada instituição começar por assumir que não tem conhecimento ao presente para lidar com a situação. Libertando-se dessa carga, irá criar contexto para juntar 'todo o sistema' em novas conversa, que permitam imaginar futuros e começar a criar prototipos. Para suportar estas conversas, cada pessoa cuidará do seu Ser. E nos confiamos que os nossos concidadãos que estão naquela instituição, que foram socializados para saberem da sua arte (e.g. juízes, advogados, professores, cientistas) tem as competências necessárias para tomar as melhores decisões em nosso nome, pois eles também são cidadãos: são a parte que tem o todo.

E tudo muda, porque muda os conceitos que estamos a lidar. Mudou a linguagem. Mudaram as conversas. Mudou-se o Ser de cada um de nós. Mudou a sociedade.


A este programa político chamaria Nós, os comuns (We, the commons).


 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

a razão das emoções ou a emoção da razão

No passado dia 11 de Outubro estive presente num colóquio na FCSH/UNL com o tema “Morality and Emotion: (Un)conscious Journey to Being”. Parabéns Sara Silva.

Neste colóquio ouvi a palestra do filosofo Vasco Correia e as suas ideias.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Nós, os comuns (We, the commons)

Gosto desta expressão: 'nós, os comuns' e da sua versão em inglês 'we, the commons'.

Este século, é o século dos 'comuns' ('commons'). Já não o 'povo', na lógica da superioridade de uma classe, seja o clero, a nobreza, a burguesia, os trabalhadores, ou qq outra, ficando o remanescente como 'povo'. Independente da classe social história, somos todos comuns, comuns na condição de sermos parte da natureza, comuns na condição de sermos parte da espécie humana, comuns na condição de sermos responsáveis pelo nosso futuro individual e colectivo.

Neste século vamos iniciar a 'propriedade dos comuns' ('commons owernership'), eliminando a dicotomia público-privado, que na pratica é um conceito de posse - quem é o dono ? que poder tem ? os comuns é um direito, uma responsabilidade, em nome do todo, dos outros comuns. Na lógica do 'público', o dono da praia é o estado. Por isso uso a praia e o 'estado' (o dono) que a limpe.

Estamos a ver emergir uma nova ética, ética dos comuns (commons ethics). A praia é dos comuns. Uso a praia e quando saiu deixo a praia melhor do que a encontrei (e.g. recolho o meu lixo e outro que tenha encontrado). Esta ética é já manifesta no collaborative consumption (consumo colaborativo) como o couchsurfing. Há luz desta ética, somos comuns no direito de desfrutar da Terra, como parte da natureza e em harmonia com esta e comuns no dever de a deixar melhor do que a encontramos.

Sobre a propriedade vamos ver crescer a criatividade, como se pode ver no 'creative commons' (comums criativos). É o futuro que chega. É a inteligência colectiva, suportada pelos processos do crowdsourcing, que se manifesta em modelos 'open source' (código aberto), i.e., dos comuns. Da posse para o direito de usufruir, que preserva, que conserva e respeita a natureza.

Sobre a propriedade dos comuns, com uma nova ética dos comuns, explode a criatividade dos comuns, que faz emergir uma nova acção humana, contemplando todas as formas de inteligência humanas (e.g. musical, matemática, espacial, movimento, linguistica, emocional), integrando os diferentes métodos de conhecer (e.g. espiritual, arte, ciência, empreendedorismo). O campo social emergente suportará uma evolução da consciência humana ao nível global, criando as condições para um planeta saudável, uma sociedade de bem estar e um indivíduo integrado.

É o projecto do século.

Gosto desta expressão: Nós, os comuns (We, the commons)!

domingo, 15 de setembro de 2013

Transformando o G (de EGO para ECO) a partir do Otto Scharmer

Li a poucos dias o novo livro do Otto Scharmer (http://www.ottoscharmer.com/): Leading from the Emerging Future: From Ego-System to Eco-System Economies.

É uma leitura que recomendo: (i) É uma boa forma de entrar na Teoria U, para quem não a conhece ainda. (ii) É uma excelente síntese das perplexidades do tempo presente. (iii) Apresenta um modelo simples que ajuda na comunicação e na partilha de modelos mentais (matriz da evolução económica). iv) Identifica as principais áreas/ sistemas/ conceitos/ sectores que temos que fazer evoluir para uma forma 'ECO'. (v) Lança pontos de reflexão sobre o que pode ser o nível ECO (4.0). (vi) E mostra, com exemplos, como podemos começar, hoje, a co-criar o nosso futuro colectivo.

Perplexidades
- Ecologica, rendimentos, financeira, tecnológica, liderança, consumo, governação, propriedade

Onde temos que evoluir:
- Educação, saúde, estados/ governos, bancos, NGO's, empresas, ...
- Propriedade, dinheiro, emprego, liderança, organização, ...
- Pessoas, comunidades, organizações, ...

Uma leitura fundamental para todos os que trabalham todos os dias para co-criar o nosso futuro colectivo, em particular para os empreendedores sociais. Poderá esta ser a nossa linguagem comum ?

Sugiro a leitura do 'resumo' pelo próprio 10 insights on the Ego-2-Eco Economy Revolution

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Breves notas sobre propriedade (enciclopédia 4)


Inspirado pela Enciclopédia 1, 2 e 3 do Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre, respectivamente, Ciência, Medo e Ligações, escrevo estas breves notas sobre 'propriedade'.

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Enciclopédia 4
Breves notas sobre propriedade


Meu, Minha

Meu marido. Meu filho. Meu almoço. Meu corpo. Meu desejo. Meu carro. Meu espírito. Meu trabalho. Meu dinheiro. Meu país. Meu saber.
Minha Mente. Minha mulher. Minha dor. Minha alegria. Minha felicidade. Minha auto-estima. Minha nacionalidade. Minha casa. Minha terra. Minha alma. Minha experiência. Minha família.

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Minha Família

Quem já passou por partilhas ?
Conhecia esta família ?
Irmão contra Irmão. Tio contra Sobrinho. Filho contra Mãe.

E para o que menos tem - de propriedade - um gato das botas.

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Economia I

Terra. Trabalho. Capital. Conhecimento.

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Terra I

Quem te nomeou dono ? Como te atribuiram senhor ?
(Ver filmes de Indios e Cowboys).

Como ganharam a posse da terra os contemporaneos Americanos ?

No mito que funda Portugal, o filho luta contra sua mãe. Para que ?

A posse da Terra tem sangue. Propriedade é um conceito construido com sangue.

Israel. Palestina. A lista é tão grande, quanta a dimensão da Terra.

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Trabalho I

Para além da formiga, quem trabalha ?
Certamente o burro, o boi. As pessoas. Como se 'faz' um boi ?
Com o amor de boi. Com o sangue da terra. Com o corpo da terra.

Pessoas são terra. Humus.
Trabalho é terra.

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Trabalho II

Houve um tempo que ser dono da terra, era ser dono das pessoas que viviam na terra. O trabalho (pessoas) e a terra eram geridos da mesma forma.

De que se tratou a guerra civil americana ? De um lado os que queriam continuar a ser donos dos seres humanos. Do outro os que achavam que já tinha sido suficiente.

(Como portugueses, conhecemos bem toda esta história, já que fomos actores principais.)

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Capital I

Que compras tu dinheiro ?
Petróleo. Ouro. Cobre. Carvão. Cimento. Areia. Sol. Água. Sementes. Cereais. Fruta. Legumes. 
Terra!

Trabalho, i.e., Pessoas.
Conhecimento, i.e., Pessoas.

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Capital II

Capital é terra.

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Capital III

Como te geres ?
Dou-te uma mão cheia de moedas. Devolves-me uma mão cheia de moedas mais umas quantas.

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Terra II

Toma este litro de gasoleo (petróleo). No final da tua viagem devolve-me 1 litro de petróleo mais qualquer coisinha.

Toma este bocado de terra. No final da tua utilização, devolve-me o bocado de terra mais qualquer coisinha.

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Trabalho III

Toma esta hora de trabalho e depois de a utilizares, devolves-me uma 1 hora de trabalho mais qualquer coisinha.

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Economia II

Como serias tu, Terra, se a terra e o trabalho fossem geridos como o capital ?
Em vez de um input que se consome - queima como o carvão - fosse um capital que se preserva e que tem juro ?

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Conhecimento I

O que, por se usar muitas vezes, tem mais valor. O que ganha valor, quanto mais se usa.

Conhece, quem sabe que conhece. 

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Conhecimento II 

Conhecimento é Pessoa.
Pessoa é terra.
Conhecimento é terra.

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Conhecimento III

Partilho o conhecimento - aberto se diz -  para que possas construir conhecimento. Co-conhecimento.

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Economia III

Como serias tu, Economia, se o capital fosse gerido como o conhecimento ? Co-capital ?
Quanto mais te uso mais vales. Se não te usar, deixas de valer.

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Economia IV

Terra. Terra. Terra. Terra.

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País

Terra com sangue. Diz quem é dono, senhor de quem.

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Propriedade I

Construção social que legitima a posse, à força, da terra.
A legitimação é social. Todos concordamos que a casa é tua; que a empresa é tua; que a fundação é tua; que o governo é teu; que é o teu país.

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Organização

Acção organizada de terra, trabalho, capital e conhecimento para um determinado fim ou propósito.

Quem é o proprietário ?

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Poder

O que tem a propriedade. A terra. Sobre a forma de terra, trabalho, capital e conhecimento.  

Terra, trabalho, capital e conhecimento formam um padrão, que se designa por país. 

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Política

Gestão do poder - dos que tem a propriedade: público e privado. 

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Democracia

Sistema de decisão política: público e privado.

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Trabalho IV

O trabalho na propriedade pública. Trabalho na propriedade privada.
Pessoa do tipo 'propriedade pública' que se segura com a insegurança da pessoa do tipo 'propriedade privada'.
Cidadão tipo 'propriedade pública'. Cidadão tipo 'propriedade privada'.

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Jovem

O que já chegou tarde à democracia - sistema de gestão sobre a atribuição da propriedade.

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Social

A acção humana que se organiza sobre as propriedades.

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Tipos de propriedade

Privada, a que não é pública. Beneficiam poucos. Todos assumem as consequências.
(se poluir o ar que passa no meu terreno, com a fábrica que lá instalei, para meu benefício, quem sofre ?)

Pública, a que não é privada. Beneficiam mais do que 'poucos'. Todos assumem as consequências.
(se a central nuclear do país vizinho der bronca, será que a fronteira evita os danos ?)

Seja uma pessoa ou uma instituição. Há ainda a colectiva ou social, a que sendo privada, envolve mais gente; tb outro tipo de gente; tem outro tipo de motivação (e.g. cooperativa, igreja). No final do dia, propriedade privada. Qual o poder da Igreja (instituição) Católica ?

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Terra I

O planeta em que os proprietários da terra fazem de conta que são Deuses no Olimpo.

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Propriedade II

O garoto Humano que se apropriou, indevidamente, de Gaia enquanto Saturno está de costas; e brinca aos Deuses, com sorriso maroto, dispondo da flora, fauna e diferentes ecosistemas.

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Propriedade III

O constructo que suporta os demais constructos. Omnipresente. Social. Economico. Político. Artistico. Científico. Antropológico. 

Como se muda um constructo ?

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Terra II

Como se muda o proprietário da Terra ?

sábado, 13 de julho de 2013

Reflexões do (tempo?) presente

Na sequência do artigo 'Don’t believe the hype: Here’s what’s wrong with the ‘sharing economy', por Milo Yiannopoulos o Fernando Mendes 'picou' a malta para reflexão que podem ver no facebook em (link). Vou dar os meus 5 céntimos por aqui (não me dou muito bem em escrever no facebook; coisa rápida ainda vai que não vai, mas algo com sentido, gosto de 'ir por aqui'.

1. Sobre a ideia/ conceito de empreendedorismo tenho reflectivo no contexto do João Sem Medo (vejam o nosso manifesto, a inovação da nossa proposta de valor e umas notas metafísicas sobre o tema10 mil horas. Empreendedor ?)

2. A dimensão económica de onde deriva o empreendedorismo também tem sido alvo de reflexão, pelo que sublinho a ética do gratuito, os conceitos de pessoa-comunidade-organização e uma notas sobre a acção de empreender)

3. Esta dimensão económica tem na sua base uma teoria de conhecimento, uma teoria sobre a forma como os humanos criam e gerem conhecimento: construtivismo, de onde deriva o construtivismo social (4 disciplinas de saber5 teses do paradigma do futuro8 saberes necessários à construção do futuro, ...)

4. Tudo isto é 'novo' e o novo tem as suas perplexidades (que não são nada novas!) - vejam o 'novo' visto por alguns poetas. Um dos desafios é a linguagem (ou falta dela, para criar novos modelos, por isso, no João Sem Medo estamos a usar metáforas, desde logo o João Sem Medo, mas também filmes de animação entre outros.

5. É neste contexto que vou enquadrar os meus comentários.

6. A Internet é um 'conceito' e um 'construto' muito interessante. Nasce do ventre de uma economia capitalista e liberal, utilizando métodos democráticos e de partilha existentes no universo cientifico. 3 grandes comunidades formaram a Internet que hoje conheçemos: a académica (A) que lhe deu origem (modelo das publicações cientíticas - daqui emergiram a governação e o valor da colaboração), a das margens/ fora do sistema/ anárquica / hacker (H) que lhe deu o seu modelo virtuoso (open source, que tem como origem o modelo das publicações científicas - daqui emergiu a ética e o valor da liberdade) e da economia/ empreendedores (E) que lhe deram a visibilidade, o valor económico e a escala mundial (modelos de negócio e o valor da transacção e da automatização - e.g. homebanking). Estas três forças estão sempre presentes em todos os construtos da Internet. Uma boa referência neste contexto é "The Internet Galaxy", M. Castels, 2001, Oxford.

7. Deste universo foi tomando forma (estrutura e susbstância), em cada geração tecnologica da internet, o conceito de crowdsourcing, que potencia cada uma das três forças referidas, bem como os cruzamentos entre elas - a brincar crowdsourcing = k1 * A + k2 * H + k3 * E. É aqui que cabem comceito como collaborative consumptionsharing economy, entre outros.

8. A 'economia da dádiva' é uma economia antiga que tem nos tempos modernos vários descendentes: 'economia da comunhão' no Brasil, 'moedas complementares' (e.g. troca, moedas locais), social (e.g. fundações, misericordias, mutualidades, cooperativas) e muitas outras variantes. Sugeria aqui o Sacred Economics do Charles Eisenstein, Great Transition do New Economic Foundation e o Economia Civil do S. Zamagni e L Bruni (que esteve esta semana em PT - vejam a talk dele no ISCSP em mytalks.pt). Para me referir a este tópico vou referir-me a 'economia da dádiva ou comunhão'.

9. Vários autores vem sublinhando, ao longo dos tempos, a importância que das relações humanas e em particular de uma relação primordial (sem a qual nenhum de nós existia, quer por concepção, quer por criação): 'amor' como lhe chamava Jesus Cristo, 'cuidar' como lhe chama Leoardo Boff, para citar 2 em tempos históricos diferentes. Autores como o Boff e o Eisenstein defendem que a nossa alienação destas relações primordiais e ancestarais ('Source' como lhe chama J. Jaworski) são fundadoras da crise do tempo presente (leia-se dos últimos 100 a 150 anos).

10. O artigo mistura todas estas dimensões. É normal. Estamos a viver tempos em que o 'novo' convive com o 'velho'; em que o 'novo' para se expressar usa a linguagem do 'velho', sobre a forma de metáforas, parábolas, ...

11. O artigo é escrito no contexto de uma economia capitalista e liberal, que vê a internet na perspectiva da comunidade E i.e. K3 >> K1 e K2. O conceito de 'sharing economy' enquadra-se neste contexto e não se confunde com o conceito de 'economia da dádiva'. Qual a diferença entre airbnb (https://www.airbnb.com/) e o couch surfing (https://www.couchsurfing.org/) ?

12. O artigo usa a dimensão do crowdfunding como recurso económico, fazendo uso de recursos que não estão monetizados e que podem ser. Aqui três conceitos económicos são fundamentais: propriedade, renda, 'disponibilidade do recurso'. É um modelo de negócio de multiparte.

13. A partilha é feita na perspectiva económica (troca tangível) e não na perspectiva da relação, do cuidado, do amor (troca intangível).

14. Ou seja, é um artigo escrito no contexto da economia capitalista e liberal, que vê o crowdsourcing na perspectiva económica das trocas tangíveis. Neste contexto vejo como correcto, dado que quer fazer estas distinções.

15. Então todos os que usam a internet estão neste contexto ? Não. A economia social vê a coisa de uma forma completamente diferente. O kiva.org é um exemplo. Mas os exemplos já são infinitos em todas as áreas de saber, desde a educação, comunicação, cidadania, ... vejam o TED, que sendo um exemplo disto tudo, tem muitos exemplos como seu conteúdo (e não vou usar a wikipedia como exemplo nestas notas ;-)

16. Neste momento há muita transformação social, novos modelos mentais (e.g. teoria integral do Ken Wilber, teoria da complexidade, psicologia positiva) que tem impacto em todas as dimensões, incluindo a económica. Veja-se a mudança de valores que Capra anuncia (Pensamento XI).

17. Eisenstein diz-nos que chegamos ao tempo em que as tecnologias do fogo (e.g. agricultura industrial) perderam a sua importância e que vamos assistir ao nascimento das tecnologias da água (e.g. permacultura).

18. A internet como 'construto' humano, com as suas três forças geradoras, será utilizada de acordo com  a consciência de cada tempo (como utilizaria a internet Jesus Cristo ? e o Gandhi ?).

19. O artigo tem a virtude de tornar claro de onde nasce este tipo de artefactos, que intenção servem e quais os resultados esperados. Na minha opinião esta história é a que esta a chegar ao fim (a que K3 é muito maior que K1 e K2). Uma nova nasce em que K3 terá mesmo peso ou será menor que os factores K1 e K2 - as possibilidades são muito mais e muito mais interessantes.

20. Para sublinhar este novo mundo, surgiu o Movimento Manifesto (http://www.movimentomanifesto.net/).







quinta-feira, 27 de junho de 2013

Paternidade 3.0

Faz hoje duas semanas que nasceu o meu 3º filho: a Inês - na foto com 3 dias e com o dragão (este 'cospe' música) que o mano Dinis escolheu para a mana; o Afonso escolheu o elefante ó-ó.

Há cerca de 9 anos, mais coisa menos coisa, o tema da paternidade emergiu como uma urgência, como uma necessidade de cada um de nós e da família que estavamos e estamos a co-construir. Em 2006 nasce o Afonso - ver o Mundo após ter estado com o Afonso nos braços e depois da emoção das anteriores 18 horas foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, uma experiência espiritual; digo que "o Mundo é todo igual, eu é que comecei a vê-lo, a partir daquele momento, com cores diferentes".

Em 2009 nasce o Dinis; é o continuar do espaço-tempo criado com o Afonso. Vi o seu nascimento - não tinha tido a oportunidade de ver o do Afonso. Conhecer o nosso filho, tê-lo nos braços, ouvir os primeiros sons, começar a ajudar a dar-lhe segurança e sentido, através do amor é um dos momentos inesquecíveis. O Leoardo Boff diz que a essência humana é o 'cuidar' e nós não duvidamos disso quando recebemos o nosso filho nos braços. A Afonso tem a característica única de ter sido o primeiro filho, o filho com que nos deparamos com o ser pai pela primeira vez, em que o ciclo se começa a fechar: o filho que, não o deixando de ser, passa a ser pai. O Dinis tem a característica única de ser o segundo, de ter sido o primeiro que o pai viu nascer, de ter a serenidade da segunda viagem.

Mas mesmo depois de 2 vezes, nada nos prepara para voltarmos a ter o nosso 3º filho nas mãos. Assisti também ao seu nascimento. É único por ser o terceiro, por ser menina, a segunda na família mais directa: na minha casa são todos meninos; na casa da minha mulher ela é a única filha; até agora os netos são todos meninos. A Inês é a primeira neta de ambos os lados. Sentimo-nos pequenos, mais pequenos que o bébé que temos nos braços, mas o nosso coração está grande, luminoso, cheio de energia, parece um farol que irradia em todas a direcções.

Sinto-me muito bem no papel de pai. Amo os meus filhos e, no presente, é-me difícil imaginar a vida sem eles. Com os meus filhos, tenho aprendido a conhecer-me melhor e tornar-me um ser humano melhor. A luz da vida que cada um deles irradia, orienta-nos no nosso caminho, faz-nos mais exigentes, mais flexíveis, faz-nos querer ser melhores, dá-nos critérios para escolhermos em quê nos focar e para quê. Amamos e somos amados. Cuidamos e cuidam de nós. Por eles e por nós. Bem-vinda Inês. Bem haja meus filhos.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ética do Gratuito

Por Marco de Abreu para o João Sem Medo Center.
Maio de 2012

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Introdução

Num estimulante livro de 2006, 'Revolutionary Wealth', o casal Toffler, desenvolve uma perspectiva sobre a 'teoria económica' vigente considerando que existem duas vertentes, a economia monetizada, a que conhecemos bem (e que chamamos 'capitalista', 'liberal', entre outros) e a economia não monetizada (onde se enquadra associações, caridade, solidariedade social, o terceiro sector, mas não só!). Na visão deles, a economia não monetizada, de dimensão pelo menos igual à monetizada, não esta estudada e encontra-se fora das teorias económicas vigentes - o caminho para se chegar a este ponto é muito bem apresentado por Bruni e Zamagni no seu livro de 2004, 'economia civil'.

Nesta economia é a intenção, o sentido que damos à nossa acção, que é o seu principal motor, e.g. querer ser pai, ir a um aniversário de um amigo, fazer voluntariado para ajudar as crianças com câncro.  Entre muitas das consequências desta perspectiva analisadas no livro, destaco uma particularmente importante para o nosso contexto, é a economia não monetizada que dá sentido à monetizada, que a gera, que a fundamenta. Vejamos alguns exemplos.

Quero ser pai, não porque tenho um interesse económico, antes porque quero dar um sentido à minha vida, é um acto biológico e espiritual, resulta da minha biologia (emergência celular) e da pessoa que sou ou ambiciono ser (intenção espiritual). Esta acção não monetária gera um conjunto de transacções monetárias ao longo do tempo, como todos os pais sabem, criar um filho é um acto de amor que custa muito dinheiro.

Vou ao Porto festejar os 40 anos do meu amigo, quero estar com ele, partilhar esta etapa na vida dele, ainda por cima passou por uma provação tão grande com a perda do pai. É um gesto de amor, de carinho com o meu amigo, uma acção da economia não monetizada, no entanto para a realizar gero uma quantidade de transacções económicas, desde logo o bilhete do comboio, os táxis, o restaurante, entre outros.

Uma outra perspectiva, também referida nos autores já citados, mas que encontra maior ênfase no Movimento Transição, é a escala, i.e., a dimensão local e global da economia, i.e. uma economia local e uma economia global. Uma economia local que se quer sistémica, sustentada e resiliente, capaz de contribuir para o bem estar humano, sendo tolerante à incerteza. Por ser forte localmente, pode tornar-se global e tirar proveito das redes globais (e.g. informação, transportes).  Por oposição à economia globalizada, resultante das teorias económicas que criaram a 'economia monetizada', no contexto do casal Toffler.

Segundo estas dinâmicas, temos assim quatro dimensões, com contextos que são observáveis hoje, mas onde há muito trabalho para fazer, na epistemologia e na pragmática, i.e. na ciência e na prática:

- economia global monetizada (e.g. microsoft)

- economia global não monetizada (e.g. nações unidas)

- economia local monetizada (e.g. supermercado de bairro)

- economia local não monetizada (e.g. horta comunitária)

Uma outra perspectiva, desenvolvida pelo Yunus, no seu livro de 2010, 'Social Business', é a importância de uma capacidade empreendedora local, que consiga gerar uma economia resiliente, sustentada. Destaca-se aqui o papel de cada pessoa nesta construção de baixo para cima (grassroot), e de organizações que estruturam o conhecimento e a acção (social business), que usam os instrumentos da economia monetizada (e.g. mercado) no contexto da economia não monetizada, permitindo que a acção chegue a quem dela necessita, numa lógica de empowerment e não de caridade. Uma economia local que se estrutura de baixo para cima com base na auto-derminação, social, política e económica, da pessoa humana. O empreendedorismo, enquanto método, é um instrumento válido em cada uma das 4 dimensões apresentadas. No contexto em que é utilizado pelo Yunnus é um instrumento ao serviço das economias locais e das pessoas. O 'social business' um instrumento de interface entre as economias monetária e não monetária.

A última perspectiva que gostava de chamar para esta discussão é a que resulta da mediação tencnológica (e.g. internet). No seu livro de 2009, 'Free', Chris Anderson, introduz o conceito de free/ gratuito, caracterizando os diferentes tipos de 'gratuito' desde os mais tradicionais expedientes de marketing (amostra para experimentarmos um produto) até ao mais genuíno (caridade). Neste contínuo enquadra-se o modelo de negócio 'gratuito' que se pode ver no Google Seach ou Google Email, o coração da empresa (core business), onde ela mais investe e onde está a sua maior estrutura, é o que oferece aos seus clientes. Quem duvidaria da qualidade destes serviços ? Que clientes toleravam uma quebra de serviço ? Mas não é gratuito !?

Este modelo de negócio serve todas as 4 dimensões atrás apresentadas e constitui um dos melhores instrumentos, possibilitados pela mediação tecnológica, para interface entre as economias monetárias e não monetária. Com uma 'pesquisa' de qualidade eu gero satisfação nos meus clientes, que voltam e me permitem monetizar as pesquisas por 'patrocínio' de terceiras partes, interessadas nos 'motivos' da pesquisa. A liberdade está toda do lado da pessoa/cliente/ consumidor - que é também produtor de conteúdos (e.g. blog) que por sua vez serão pesquisados. Este 'gratuito' é onde a empresa se empenha, é o serviço/ produto de qualidade, é onde coloca todo o seu investimento, é onde se desenvolve o seu negócio.

Estes dois modelos são instrumentos muito importantes, dado que permitem navegar entre as economias local e global, e economias nometizada e não monetizada, a saber:

- empreendedorismo (método)

- free/ gratuito (modelo de negócio, melhor dizendo uma classe/ categoria de modelos de negócio)



Modelo de negócio

O João Sem Medo Center for Entrepreneurship, é uma empresa social, que participa na economia local não monetizada. A sua 'moeda' é a troca, a generosidade de cada uma das pessoas que se liga a esta entidade.

Mas é também uma comunidade de pessoas que estão a empreender, i.e., de pessoas que participação na economia local (e global) monetizada.  Desenvolve o método do empreendedorismo. Utiliza um modelo de negócio de base gratuita. Muitas das aventuras são projectos mediados por tecnologia, onde o mercado natural é o global.

Isto é, tocamos em todas as frentes, em todas as 4 dimensões e utilizando os dois modelos. Como tudo isto se liga ?

É preciso deixar claro, como pressuposto base, que como entidade subscritora do MOVIMENTO manifesto, somos pessoas com interesses, a saber: económico, social, aprendizagem e motivação.

Vamos responder a esta questão, respondendo a duas questões que se deriva desta: Como pagamos as contas do João Sem Medo Center ? Como são remuneradas as pessoas que trabalham no João Sem Medo Center ?

Como pagamos as contas do João Sem Medo Center ?

O João Sem Medo Center presta serviços aos sócios (e.g. contabilidade, marketing, tecnologia, jurídico), individuais e colectivos. Estes serviços são prestados por uma rede de parceiros (também eles criados por pessoas empreendedoras). Em cada serviço prestado, 10% do valor do serviço, reverte a favor do João Sem Medo Center. É com este valor que pagamos a nossa estrutura de custos como a renda das instalações ou o acesso a internet.

Como são remuneradas as pessoas que trabalham no João Sem Medo Center ?

As pessoas que trabalham, i.e., cuja sua entidade patronal é o João Sem Medo Center fazem parte da sua estrutura de custos. Assim como as pessoas que estão ao serviço de organizações contratadas pelo João Sem Medo Center. Os sócios, candidatos a sócios e voluntários participam na economia da generosidade como lhe chamamos, a economia em que cada pessoa dá o seu tempo e as suas artes e recebe o tempo dos outros, a arte dos outros, mais tudo o que emerge por seremos uma comunidade vibrante de pessoas que querem construir o mundo: contactos, oportunidades de negócio, de parceria, apoio humano, suporte de gestão, orientação, referências, ideias, sugestões, …

Cada pessoa está no João Sem Medo Center porque está a empreender, porque está a desenvolver pelo menos uma aventura. É daqui que vem os seus resultados financeiros, o seu dinheiro para as suas despesas. É este o ponto em que estamos na economia monetizada.

Cada pessoa sabe fazer muitas coisas, pode saber cozinhar, costurar, ser consultor financeiro, programador, designer, perito em propriedade intelectual, escritor, músico, … Por estarmos em comunidade, cada uma destas pessoas coloca a sua arte ao serviço dos outros. Como para criar uma aventura precisamos de muitas artes, desta maneira, por disponibilizar a minha arte, tenho acesso a arte do outro, de forma gratuita. Fazemos isto através de vários instrumentos que foram desenhados com a colaboração e cooperação no centro: aks experts, workshops, pitch, talks, community links, entre muitos outros.

É por isso que dizemos que somos uma "empresa social" (prestador de serviços, a entidade que se quer saudável e lucrativa, mas de missão social) de "empreendedores para empreendedores" (a comunidade que por participar na economia da generosidade, contribui para a sua economia monetizada, para a sua aventura ou aventuras, de onde vem os seus rendimentos. Uma economia sustenta a outra, num enacting.

Somos locais, actuamos em cada local, focados em cada pessoa. Mas queremos ser globais, porque também apoiamos pessoas cuja ambição é criar projectos globais, mas porque queremos que a nossa mensagem chegue aos futuros 10 biliões de seres humanos como prevê Rosling na sua mais recente TED Talk (http://www.ted.com/talks/hans_rosling_religions_and_babies.html). Faremos isso, criando vários centros em cada ponto do mundo onde faça sentido, onde a comunidade local queira, pois terá que ser essa comunidade que o desenha e desenvolve. Se tens ideia de criar um centro, contacta-nos.

Uma última questão surge: e como posso participar não sendo membro da comunidade ? o que recebo ? o que tenho que dar em troca ?

Todas as pessoas do mundo podem participar no João Sem Medo Center e receber, participando nas nossas iniciativas abertas ao mundo, assim se ultrapasse o problemas de acessibilidade, como a lingua, informática, entre outros. Mas por princípio não estamos fechados. Por desenho e limitações de recursos, sabemos que há algumas barreiras (e.g. uma pessoa que fale chinês e não saiba falar inglês ou português terá dificuldade em participar no João Sem Medo Center, ainda!).

Devolvo, dando, no caso mais simples, os meus contactos (e.g. email) para poder receber a agenda das nossas iniciativas. Posso dar também do meu tempo, sendo voluntário numa iniciativa ou participando com as minhas competências numa (e.g. ask experts, organizar um workshop).

Se eu tiver uma empresa, i.e., sou um empreendedor, o João Sem Medo Center reconhece isso e promove a marca do empreendedor e o seu projecto: somos uma comunidade de empreendedores para empreendedores, os que estão a começar agora e os que já começaram a mais tempo.

É através deste modelo de negócio gratuito que vamos crescer, mostrando o nosso valor e atraindo cada vez mais pessoas que enriquecem a comunidade e a abilitam a fazer mais. É um ciclo de feedback positivo que se alimenta a si próprio, auto-organiza-se e auto-potência-se.



Ética do gratuito

Somos uma empresa social, que potenciamos a economia não monetizada (como chamamos a economia da generosidade) para criar uma economia monetizada para os nossos sócios. Neste enacting entre as duas economias (monetizada e não monetizada) geramos o nosso valor social. Para nós o dinheiro é um instrumento para a nossa acção, ajudar pessoas a empreender, a aprender a viver com a incerteza e a utilizar a incerteza a seu favor. Empreendedorismo.

Somos um instrumento de economia local, assente na pessoa e no seu sistema de organização local, a ideia que a pessoa pode construir esse sistema em colaboração com os outros. Mas sabemos como utilizar as redes globais para potenciar as oportunidades da nossa economia local, entendemos como a mediação tecnológica potência e amplifica o conhecimento humano, gerando valor global (economia).

Por último, utilizamos para financiar a nossa estrutura de custos o modelo de negócio da comissão de serviço. Para 'financiar' a nossa acção o modelo de negócio gratuito (economia da generosidade).

Resumimos isto na frase, "somos uma empresa social de empreendedores para empreendedores".

Este gratuito é um gratuito de qualidade, é o melhor que cada pessoa sabe. É o melhor que eu, que estou a ler este documento sei, pois eu também posso participar. O outro (o que está a fazer o workshop ou o aks experts) não é melhor que eu, apenas sabe mais do que eu no tema A. Mas eu também sei muito do tema B. Eu recebo e dou. Eu respeito e sou respeitado. É tão velho como a humanidade ou, pelo menos, como Confúcio. Se Eu sou o Outro e o Outro sou Eu, quando falto ao respeito ao outro, estou a faltar ao respeito a mim. Esta é a premissa base da ética do gratuito que aqui defendemos. Se decidi participar tenho direitos e deveres. Não tenho outra hipótese a não ser respeitá-la.

Tudo começa com um acto de liberdade:

- O João Sem Medo Center decidiu ter uma oferta gratuita, de qualidade, à comunidade.

- A pessoa decidiu se inscrever ou participar nessa oferta.

É neste acto fundador, nesta acção primordial, que reside o fundamento desta ética. O João Sem Medo Center não era obrigado a ter uma oferta para mim, nem eu era obrigado a me inscrever. Mas assim que formulou a oferta e assim que eu aceitei participar, inicia-se uma relação de partes livres, com direitos e deveres, desde logo legais, mas, muito mais importantes que estes, éticos.

O João Sem Medo Center tem o dever de me oferecer um serviço de qualidade, em respeitar-me como pessoa, em salvaguardar a minha informação, em perguntar a minha opinião, em ouvir-me e em fazer uso dessa informação para a sua evolução, para a sua melhoria, por forma a que eu continue a ter um serviço de qualidade. Por forma a que comunidade seja auto-sustentada.

Por sua vez eu tenho a obrigação de honrar o meu compromisso, estar presente, chegar a horas, participar, colaborar com o outros, disponibilizar-me para aprender e para ensinar. Para partilhar.

Sobre o valor do gratuito

É este gratuito sinónimo de coisa que não tem valor, ou que só é gratuito porque ninguém compra. Não é gratuito por desenho, por modelo de negócio, por natureza (como é a Google). E sendo gratuito é de excelente qualidade, é o melhor que cada membro da comunidade consegue fazer, pessoas que têm empreendimentos realizados e uma história de vida. Pessoas cuja sua profissão é usar este conhecimento, que vivem dele. Simplesmente no contexto do João Sem Medo, disponibilizam de forma gratuita, porque estão na comunidade, porque estão ao abrigo da lei 'eu dou e recebo'. Dou do meu tempo e saber e recebo do tempo dos outros, saber dos outros. Porque me promovo e a minha actividade. Porque ajudo e sou ajudado. Porque participo na economia da generosidade.

Ser gratuito é sinónimo de qualidade. Do melhor que somos capazes em cada momento. Só assim estamos a altura de ajudar cada pessoa a construir o seu futuro, independente do seu poder económico, literacia, escolaridade, ou qualquer outro atribuito.

Sobre a legitimidade da falta

Claro que é legitimo faltar. O meu filho ficou doente e tenho que ir busca-lo. Fui atropelado. Um cliente ligou-me e tenho que ir em seu auxílio. Claro que é legítimo faltar. Mas esta legitimidade não me desresponsabiliza. É exactamente ao contrário. Porque quero ser respeitado, tenho que respeitar. Tenho que respeitar aquele que, em vez de estar com os seus filhos ou com os seus amigos, decidiu disponibilizar do seu tempo para partilhar algo comigo, que eu quero saber, por liberdade de escolha. Ele, generoso, partilha comigo e faz de forma gratuita. Eu, livre, decidi que me interessava. É enorme a responsabilidade, maior do que se eu tivesse pago. Se tivesse pago a pessoa teria a recompensa económica. Não teria a recompensa do reconhecimento. Aqui, como não há a económica, só a do reconhecimento. Se não venho, impossibilito a pessoa de ter a sua recompensa. Tão generosamente partilha comigo, eu aceito e ainda por cima não lhe recompenso. Não pode, este comportamento, ser uma expressão de uma boa ética.

Acresce o facto de, como as inscrições são limitadas, pelo imperativo de tempo e qualidade de serviço, ao me inscrever limito o acesso a outro, que tem igual direito ao meu, apenas o decidiu exercer mais tarde. Se me inscrevo e não compareço, ofendo todos os outros que queriam estar presentes e não podem porque eu exerci a minha liberdade, mas não tive há altura da responsabilidade que esta me conferia. Se o outro faz o mesmo, eu nunca me vou conseguir inscrever ou estar presente. O feitiço voltou ao feiticeiro, qual boomerang ético, como explica a tragédia dos comuns.

No caso de falta, e sempre que possível, é informar o João Sem Medo por forma a que este possa promover as diligências para que outro entre em seu lugar. A razoabilidade e o bom senso ponderam todos estes pressupostos. Afinal somos humanos. Falham as pessoas que representam o João Sem Medo, falham as que são servidas. Mas tal facto nos isenta da responsabilidade. Exerce-la com sabedoria é a arte de todas as pessoas que se respeitam a si mesmas.

Por ser legitimo faltar, só devo me inscrever quando tenho boas garantias que vou conseguir estar presente (sabemos que não existe a certeza absoluta!). Em dúvida devo esperar, por forma a não limitar o acesso ao outro.

Sobre chegar atrasado

Como o serviço é de qualidade, como é gratuito e como a falta existe, se chegar atrasado, o mais provável é a acção já ter começado, irei perturbar os trabalhos, não devo tirar o proveito e muito provavelmente perco o meu lugar caso, haja outras pessoas em espera. É legitimo, mas o atraso deve ser aceitável (na fronteira dos 15 minutos). Importa perceber que se começar tarde, acaba tarde, e todos tem compromissos a honrar. A interacção social obriga a esta responsabilização que os horários são para cumprir, com a flexibilidade necessária para o imprevisto mas sempre no respeito por cada uma das pessoas

Sobre ser fornecedor

Se aceitei participar nas iniciativas do João Sem Medo Center e ganhei negócio em virtude desse acto, sou um fornecedor de facto. Neste contexto devo prestar a devida comissão ao João Sem Medo Center de 10% do negócio.

Imagine por hipótese que um sócio me passou uma oportunidade de negócio. Esse é um acto normal entre pessoas que estão juntas e interagem e como não fere os pressupostos éticos desta comunidade.

Sobre ser sócio

É maior a responsabilidade, pois decidi livremente entrar nesta comunidade e respeitá-la. Ao assumir um pressuposto errado (gratuito é mau, não faz mal faltar, posso chegar atrasado), não só tenho impactos sobre o outro, sobre mim, como também prejudico a imagem do João Sem Medo e a comunidade com a qual me identifico e decidir associar-me. Sendo estes instrumentos importantes na evangelização pública da acção do João Sem Medo, inibo que mais pessoas possam conhecer a nossa mensagem e dar o seu contributo à comunidade, o que prejudica a comunidade e, por consequência, a mim próprio. Como leva tempo a sentir esse efeito, tomo como não existente. Não o devo fazer.



Conclusão

A nossa economia da generosidade (modelo de comissões, associado ao modelo do gratuito) permite-nos um enacting entre a economia não monetizada e a economia monetizada que cria valor para a pessoa, para a comunidade e para a sociedade. Este ciclo de ganhos positivos (soma não nula) alimenta uma comunidade local de empreendedorismo e a capacitação das pessoas para construir o seu futuro e das suas comunidades. Este movimento de base local, assim que se multiplica em rede e/ou tira proveito das redes globais instaladas, ganha proporção global.

É um instrumento do bem estar humano. Por isso necessita de uma sociedade resiliente. De uma economia local, humana. Da iniciativa de cada um.

Numa transacção monetária há dois tipos de recompensa, a monetária e do reconhecimento. Como é uma acção gratuita não há a recompensa monetária. Aumenta assim a responsabilidade individual para com o outro que partilha de forma tão generosa.

Por ser uma acção individual, livre e gratuita, responsabiliza. O compromisso para com o outro é maior, porque assente exclusivamente na reciprocidade. É esta a essência da ética da gratuitidade: a de me respeitar a mim mesmo através do outro!



Referências

Revolutionary Wealth, Toffler & Toffler, 2006

Economia Civil, Bruni e Zamagni, 2004

The Transition Handbook, Rob Hopkins, 2008

The Great Transition, New Economic Foundation, 2011

Social Business, Muhammad Yunus, 2010

Free, Chris Anderson, 2009

MOVIMENTO manifesto, www.movimentomanifesto.net, 2011




terça-feira, 23 de abril de 2013

crenças

Tenho reforçado a crença que um bom programa para o nosso território teria os seguintes objectivos e princípios:

Objectivos:
1. Ninguém com fome
2. Todas as crianças na escola
3. Pagar a divida

Seriam os primeiros três objectivos a cumprir. Para o que queremos fazer, somos necessários todos e não podemos ter fome (curto prazo). Não há futuro, se no presente não conseguirmos sonha-lo e para isso é preciso ler, escrever, dançar, tocar música, fazer contas, imaginar, fazer teatro, cantar, pintar, semear, meditar, ... é na escola que se começa e para começar a escola que temos tem os requisitos mínimos (longo prazo). Queremos fazer em paz, sendo importante pagar da mesma forma que a contraímos, a dívida. Pagamos para em paz, fazermos a mudança de modelo/ paradigma que queremos/ teremos que fazer. Sem fome, com os filhos na escola e a dívida paga, escolhemos os próximos três objectivos.

Princípios:
1. Nós somos parte indivisível da natureza, que não controlamos (Gaia)
2. Cada pessoa, com a sua acção pode mudar o seu futuro
3. Cada pessoa só consegue mudar-se a si
3. Vamos fazer com todos e para todos (co-criação e auto-organização)
5. Tudo o que precisamos já temos aqui e agora
6. A tecnologia esta ao serviço da pessoa e da natureza


acção de empreender no Mundo

Estimulado pela reflexão do Hugo em (link);

1. Vejo o empreendedorismo como um método, equiparado ao método cientifico (conhecimento), filosofico (especulativo/ conceito), artisitico (estético/ beleza), espiritual (teologico/ sentido)

2. Estes métodos são os métodos que a humanidade ao longo do tempo criou para lidar com a incerteza, com o seu lugar no Mundo, com o fazer sentido, com o lidar com a consciência de si e do Mundo

3. Neste sentido, a minha tese é que foi com o empreendedorismo que a humanidade criou os outros, foram empreendedores os que usaram as tecnologias da pedra e do fogo (onde isto tudo começou), os que pintaram nas paredes e inventaram tintas, pinceis e afins, os que criaram a agricultura, os seus instrumentos e as suas tecnicas, ... ou seja, empreendedorismo é o método com que a humanidade interage com o seu meio, e faz sentido em cada época

4. Numa visão mais espiritual contemporanea, o empreendedorismo é a manifestação do espirito criativo do universo, a consciência que cria, o espirito criador. Em cada época os empreendedores de então criaram o que tiveram de criar para fazer sentido: a arte, a caça, a agricultura, as tecnologias do fogo, ... as tecnologias electricas, as de comunicação, computação, informação, organização, ...

5. A consciência universal cria através da Vida, i.e., também da humanidade (mas não só!); a manifestação deste impulso criador nas pessoas, levou a acção no Mundo, a imaginar algo na mente e a desenvolver as 'artes' para criar no mundo o que se imaginou na cabeça e esta é a essência do empreendedor e do empreendedorismo: consciência que cria consciência.

6. Com as tecnologias do fogo criamos a separação entre nós e os outros: passamos a ter controlo sobre os outros animais, sobre a natureza, sobre nós próprios; passamos a utilizar o fogo para cozinhar, proteger, fazer utensilios, ... passamos a exercer controlo e nos distanciar da natureza

7. Continuamos a nossa separação com a agricultura: precisamos controlar a natureza para ter uma colheita

8. O método cientifico é o culminar deste processo de separação - inventamos forma de controlar o Mundo: conhecer o real (o positivo), que já existe e é matematico (cartesiano), descodificar as leis (tudo esta determinado) e desta forma conseguimos controlar o futuro e eliminar a incerteza - não temos mais que estar subjugados aos caprichos da natureza, do Homem (então o centro do Mundo), da ignorância (e os tempos que se viviam havia muita caça as bruxas, muita fogueira onde se queimavam pessoas, ...)

9. Desde então a separação entre a mente e o corpo, entre o conhecer e o fazer, teve como resultado a ilusão do controlo e da certeza: o mundo máquina; as pessoas foram encantadas pela flauta do progresso científico e pela continua alienação: nós não fazemos parte da natureza; a natureza existe para nos servir; temos tudo a disposição; a separação fez desaparecer a consciência, um processo complexo e logo emergente, surge de juntar e não de separar

10. É a ilusão que chega ao fim. Somos mente e corpo: a mente é corpo e o corpo é mente. Nós temos que nos confrontar com a suprema sabedoria: nós somos natureza e não estamos separados dela, quer no plano micro, a natureza humana, quer no plano macro, o cosmos. Nós somos Gaia. Com o juntar emerge a consciência e começamos a perceber que estivemos alienados

11. Foi como se nos tivessemos deitado a noite, tranquilos, e de manhã, acordamos sobressaltados e estamos cheios de sangue com uma faca na mão e jaz um corpo ao nosso lado. O que se passou ? É este acordar que esta a acontecer por todo o lado: o que fizemos ?

12. Este é o sentir da época; o chamamento dos empreendedores, das pessoas que, olhando para tudo isto, sentem o impulso criador, vêm o mundo como um caldeirão de oportunidade; "esta tudo para fazer", dizem.

13. A percepção das oportunidades pressupoem que a pessoa esta em sentido de integração (como se diz no eneagrama), que esta em flourishing (como se diz na psicologia positiva), que sente o impulso criador e que faz sentido do mundo agindo sobre ele

14. O empreendedores de hoje sentem que já não podem separar; que tem que juntar, reunir. Que as tecnologias não podem ser do fogo (controlo). Antes terão que ser da água (felxibilidade/ adaptação). Temos que incluir e não excluir. Temos que vir todos e construir com e para todos.

15. Este é o desafio de juntar mente e corpo. razão e emoção. é o integral. Crescemos muito na razão e nos seus métodos. Crescemos muito na acção e nos seus métodos. Estamos muito mal preparados para lidar com o coração e com as emoções.

16. É este o espaço-tempo dos empreendedores do presente: promover a integração das pessoas, para estas poderem usar o método do empreendedorismo e co-criarem organizações e comunidades resilientes, que promovam o bem estar de Gaia.

17. A sirene esta a tocar. É a hora. Vinde pessoas da nossa época. Vinde sonhar. É tempo de Sonhar. E é tempo de empreender para termos amanhã, o Mundo com que sonhamos hoje.

18. O chamamento será ouvido por todos aqueles que treinarem o seu ouvido para ouvir a voz do silêncio. O seu silêncio. O chamamento é interior. Começa em cada um de nós.

19. É este o processo que temos que facilitar. Não pode ser controlado. É um exercicio de liberdade. É este o novo que quer nascer.

20. E para algo nascer, algo terá que morrer. O controlo. E isso doi. É o parto. Primeiro o utero foi grande. Depois começou a ficar apertado - há que nascer. Segue-se a dor do nascimento, o caos, a desorganização. Para depois vermos nos nossos braços o/a filho (a). Segue a tranquilidade do novo. Neste momento estamos a sentir que o útero é pequeno e que há que nascer. É tempo de começar a viagem. Quem sou ?