sábado, 13 de julho de 2013

Reflexões do (tempo?) presente

Na sequência do artigo 'Don’t believe the hype: Here’s what’s wrong with the ‘sharing economy', por Milo Yiannopoulos o Fernando Mendes 'picou' a malta para reflexão que podem ver no facebook em (link). Vou dar os meus 5 céntimos por aqui (não me dou muito bem em escrever no facebook; coisa rápida ainda vai que não vai, mas algo com sentido, gosto de 'ir por aqui'.

1. Sobre a ideia/ conceito de empreendedorismo tenho reflectivo no contexto do João Sem Medo (vejam o nosso manifesto, a inovação da nossa proposta de valor e umas notas metafísicas sobre o tema10 mil horas. Empreendedor ?)

2. A dimensão económica de onde deriva o empreendedorismo também tem sido alvo de reflexão, pelo que sublinho a ética do gratuito, os conceitos de pessoa-comunidade-organização e uma notas sobre a acção de empreender)

3. Esta dimensão económica tem na sua base uma teoria de conhecimento, uma teoria sobre a forma como os humanos criam e gerem conhecimento: construtivismo, de onde deriva o construtivismo social (4 disciplinas de saber5 teses do paradigma do futuro8 saberes necessários à construção do futuro, ...)

4. Tudo isto é 'novo' e o novo tem as suas perplexidades (que não são nada novas!) - vejam o 'novo' visto por alguns poetas. Um dos desafios é a linguagem (ou falta dela, para criar novos modelos, por isso, no João Sem Medo estamos a usar metáforas, desde logo o João Sem Medo, mas também filmes de animação entre outros.

5. É neste contexto que vou enquadrar os meus comentários.

6. A Internet é um 'conceito' e um 'construto' muito interessante. Nasce do ventre de uma economia capitalista e liberal, utilizando métodos democráticos e de partilha existentes no universo cientifico. 3 grandes comunidades formaram a Internet que hoje conheçemos: a académica (A) que lhe deu origem (modelo das publicações cientíticas - daqui emergiram a governação e o valor da colaboração), a das margens/ fora do sistema/ anárquica / hacker (H) que lhe deu o seu modelo virtuoso (open source, que tem como origem o modelo das publicações científicas - daqui emergiu a ética e o valor da liberdade) e da economia/ empreendedores (E) que lhe deram a visibilidade, o valor económico e a escala mundial (modelos de negócio e o valor da transacção e da automatização - e.g. homebanking). Estas três forças estão sempre presentes em todos os construtos da Internet. Uma boa referência neste contexto é "The Internet Galaxy", M. Castels, 2001, Oxford.

7. Deste universo foi tomando forma (estrutura e susbstância), em cada geração tecnologica da internet, o conceito de crowdsourcing, que potencia cada uma das três forças referidas, bem como os cruzamentos entre elas - a brincar crowdsourcing = k1 * A + k2 * H + k3 * E. É aqui que cabem comceito como collaborative consumptionsharing economy, entre outros.

8. A 'economia da dádiva' é uma economia antiga que tem nos tempos modernos vários descendentes: 'economia da comunhão' no Brasil, 'moedas complementares' (e.g. troca, moedas locais), social (e.g. fundações, misericordias, mutualidades, cooperativas) e muitas outras variantes. Sugeria aqui o Sacred Economics do Charles Eisenstein, Great Transition do New Economic Foundation e o Economia Civil do S. Zamagni e L Bruni (que esteve esta semana em PT - vejam a talk dele no ISCSP em mytalks.pt). Para me referir a este tópico vou referir-me a 'economia da dádiva ou comunhão'.

9. Vários autores vem sublinhando, ao longo dos tempos, a importância que das relações humanas e em particular de uma relação primordial (sem a qual nenhum de nós existia, quer por concepção, quer por criação): 'amor' como lhe chamava Jesus Cristo, 'cuidar' como lhe chama Leoardo Boff, para citar 2 em tempos históricos diferentes. Autores como o Boff e o Eisenstein defendem que a nossa alienação destas relações primordiais e ancestarais ('Source' como lhe chama J. Jaworski) são fundadoras da crise do tempo presente (leia-se dos últimos 100 a 150 anos).

10. O artigo mistura todas estas dimensões. É normal. Estamos a viver tempos em que o 'novo' convive com o 'velho'; em que o 'novo' para se expressar usa a linguagem do 'velho', sobre a forma de metáforas, parábolas, ...

11. O artigo é escrito no contexto de uma economia capitalista e liberal, que vê a internet na perspectiva da comunidade E i.e. K3 >> K1 e K2. O conceito de 'sharing economy' enquadra-se neste contexto e não se confunde com o conceito de 'economia da dádiva'. Qual a diferença entre airbnb (https://www.airbnb.com/) e o couch surfing (https://www.couchsurfing.org/) ?

12. O artigo usa a dimensão do crowdfunding como recurso económico, fazendo uso de recursos que não estão monetizados e que podem ser. Aqui três conceitos económicos são fundamentais: propriedade, renda, 'disponibilidade do recurso'. É um modelo de negócio de multiparte.

13. A partilha é feita na perspectiva económica (troca tangível) e não na perspectiva da relação, do cuidado, do amor (troca intangível).

14. Ou seja, é um artigo escrito no contexto da economia capitalista e liberal, que vê o crowdsourcing na perspectiva económica das trocas tangíveis. Neste contexto vejo como correcto, dado que quer fazer estas distinções.

15. Então todos os que usam a internet estão neste contexto ? Não. A economia social vê a coisa de uma forma completamente diferente. O kiva.org é um exemplo. Mas os exemplos já são infinitos em todas as áreas de saber, desde a educação, comunicação, cidadania, ... vejam o TED, que sendo um exemplo disto tudo, tem muitos exemplos como seu conteúdo (e não vou usar a wikipedia como exemplo nestas notas ;-)

16. Neste momento há muita transformação social, novos modelos mentais (e.g. teoria integral do Ken Wilber, teoria da complexidade, psicologia positiva) que tem impacto em todas as dimensões, incluindo a económica. Veja-se a mudança de valores que Capra anuncia (Pensamento XI).

17. Eisenstein diz-nos que chegamos ao tempo em que as tecnologias do fogo (e.g. agricultura industrial) perderam a sua importância e que vamos assistir ao nascimento das tecnologias da água (e.g. permacultura).

18. A internet como 'construto' humano, com as suas três forças geradoras, será utilizada de acordo com  a consciência de cada tempo (como utilizaria a internet Jesus Cristo ? e o Gandhi ?).

19. O artigo tem a virtude de tornar claro de onde nasce este tipo de artefactos, que intenção servem e quais os resultados esperados. Na minha opinião esta história é a que esta a chegar ao fim (a que K3 é muito maior que K1 e K2). Uma nova nasce em que K3 terá mesmo peso ou será menor que os factores K1 e K2 - as possibilidades são muito mais e muito mais interessantes.

20. Para sublinhar este novo mundo, surgiu o Movimento Manifesto (http://www.movimentomanifesto.net/).







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